UM SONHO
Na
juventude dos meus 18 anos, sonhei certa noite com alguém especial.
Que fosse para mim tão
bela a ponto de tornar-me um apaixonado ciumento.
Que fosse tão atraente
aos meus sentidos, que nenhuma outra paixão pudesse nos separar.
Que fosse tão devotada
a mim, à família e à minha profissão, que, a cada
dia, mais e mais eu tivesse razões para admirá-la e amá-la.
Mais que isso, que Deus
lhe daria o dom artístico da pintura e um sorriso alegre ao amanhecer.
Que todas as noites nos
daríamos as mãos em oração e agradecimento a Deus
pelo simples fato de o outro existir.
Que, em quarenta e um anos
de convivência, não daríamos nunca um ao outro um único
motivo que fosse para chorar.
Neste sonho ainda sonhei
que chegaríamos à calmaria dos anos, como mornas tardes de verão,
onde uma brisa suave sopraria sobre as roseiras e receberia como recompensa
o perfume das rosas.
Sonhei, enfim, que Deus
-que sempre foi presença viva em meus dias- concederia ainda uma última
graça a este sonhador:
Que este ser especial, Rosil,
esteja ao meu lado quando eu me tornar saudades.
I.L.
O NASCIMENTO (Do livro)
Este
livro nasceu do desejo de compartilhar o maior tesouro que o ser humano pode
ter: amar e ser amado. Nasceu da cobrança de inúmeros encontristas,
após palestras, ávidos por conhecer os paradigmas do homem e da
mulher. Nasceu na esperança de que muitos leitores, interessados em melhorar
a sua vida amorosa, aprendam um pouco mais sobre o sexo oposto e, na aceitação
incondicional do outro, encontrem o tão sonhado amor existencial. Nasceu
da minha incompreensão ante o fato de existirem casais que, há
tantos anos juntos, esquecem, porém, de viver a mais sublime das vocações
do ser humano -a vocação do amor.
Se a alma humana é
divina na sua essência, o ser humano só se realiza quando se plenifica
no encontro das almas. Amar e ser amado: eis o grande tesouro escondido nas
profundezas do nosso eu, lá onde moram os nossos sonhos, região
que somente os sábios têm a coragem de desbravar.
Vinha de um encontro de
casais, realizado a trinta quilômetros de Curitiba, quando, no rádio
do carro, ouvi uma canção – "Aparências",
de Ed Wilson e Cury – belamente interpretada pela cantora Fafá
de Belém. Ouvi aqueles versos muito sensíveis e mentalmente os
repeti:
"Quantos
anos já vividos, revividos
Simplesmente por viver
Quantos erros cometidos
e tantas vezes
Repetidos por nós
dois
Quantas lágrimas
sentidas e choradas
Quase sempre às escondidas
Prá nenhum dos dois
saber
Quantas dúvidas deixadas
no momento
Pra se resolver depois
Quantas vezes
nós fingimos alegria
Sem o coração
sorrir
Quantas vezes nós
deitamos lado a lado
Tão-somente prá
dormir
Quantas frases
foram ditas com palavras
Desgastadas pelo tempo
Por não Ter o que
dizer
Quantas vezes nós
dissemos "eu te amo"
Prá tentar sobreviver
Aparências nada mais
Sustentaram nossas vidas
E apesar de mal vividas
Têm ainda uma esperança
de poder viver
Quem sabe
rebuscando essas mentiras
E vendo onde a verdade se
escondeu
Se encontre ainda alguma
chance de juntar
Você, o amor e eu."
Perguntei-me:
por que com ele todos sonham e tão poucos conseguem alcançar o
amor em sua plenitude? Ainda sob o impacto dos versos acima transcritos, e na
tentativa de responder à pergunta formulada, comecei a esboçar
este livro, cuja proposta é refletir sobre o amor existencial. Para tanto,
procurei utilizar, sempre que possível, uma linguagem coloquial, o tom
de conversa, amena e sem rebuscamentos, que reservo aos meus amigos, familiares
e pacientes. Uma conversa invariavelmente fundada na sinceridade e na mútua
confiança.
As reflexões compartilhadas
no livro, bem como as informações que as acompanham derivam de
experiência cotidiana como médico e como ser humano. Dezenas de
encontros, congressos e cursilhos dos quais, ao longo dos anos, tenho participado,
na condição de palestrante, neles abordando temas ligados ao amor
e à sexualidade, forneceram-me por assim dizer, um acervo de perscpectivas
e subsídios que nos franqueia o acesso ao conhecimento do outro e à
plenitude do amor existencial.